Entre Influências e Conexões: A Neurociência Social no Desenvolvimento de Pré-Adolescentes
- Isaías Antônio Nascimento

- 3 de out. de 2025
- 15 min de leitura
Atualizado: 18 de nov. de 2025
Como o convívio e as relações moldam hábitos, emoções e comportamento.
Resumo:
O presente artigo discute o papel da Neurociência Social na compreensão do comportamento de pré-adolescentes no convívio escolar, com foco nas influências externas e na suscetibilidade a hábitos e padrões comportamentais. A análise parte de observações de pais, depoimentos de familiares e estudos recentes sobre comportamento e violência escolar, evidenciando como o ambiente social e os grupos de amigos podem potencializar atitudes de rebeldia e vulnerabilidade emocional. Considera-se que o cérebro, especialmente nessa fase de desenvolvimento, permanece altamente maleável e receptivo a mudanças, tornando possível, por meio de intervenções conscientes, favorecer hábitos saudáveis, resiliência emocional e relações mais equilibradas. Alertar para a importância de uma atuação precoce e de uma leitura sensível das transformações sociais e comportamentais é essencial, a fim de reduzir impactos a longo prazo na formação neural, emocional e social.
Palavras-chave:
Neurociência Social, Comportamento de pré-adolescentes, Influências sociais, Desenvolvimento emocional, Convivência escolar
Abstract:
This article discusses the role of Social Neuroscience in understanding the behavior of pre-adolescents in school settings, focusing on external influences and susceptibility to habits and behavioral patterns. The analysis is based on parental observations, testimonies from family members, and recent studies on adolescent behavior and school violence, highlighting how social environments and peer groups can amplify rebellious and emotionally vulnerable behaviors. It is considered that the brain, particularly during this developmental stage, remains highly plastic and receptive to change, making it possible, through conscious interventions, to promote healthy habits, emotional resilience, and more balanced relationships. Raising awareness about the importance of early action and a sensitive reading of social and behavioral transformations is crucial to mitigate long-term impacts on neural, emotional, and social development.
Keywords:
Social Neuroscience, Pre-adolescent behavior, Social influences, Emotional development, School coexistence.
Justificativa
A escolha de investigar o comportamento de pré-adolescentes sob a perspectiva da Neurociência Social encontra respaldo tanto na realidade escolar quanto nas demandas da sociedade contemporânea. O período da pré-adolescência é marcado por intensas transformações cognitivas, emocionais e sociais, que tornam os sujeitos mais vulneráveis às influências externas. A escola, nesse cenário, assume papel central, funcionando como espaço de formação de valores, mas também como palco de conflitos, tensões e desafios relacionais.
O aumento de episódios de violência escolar no Brasil, como mostram os levantamentos recentes, revela a urgência de compreender as dinâmicas que afetam o comportamento dos jovens. Mais do que números, trata-se de vidas em construção que podem ter seu percurso comprometido por hábitos nocivos, vínculos frágeis e escolhas impensadas. A relevância desta pesquisa está em lançar luz sobre tais fenômenos, considerando que o cérebro humano, especialmente na pré-adolescência, encontra-se em pleno processo de desenvolvimento, sendo moldado pelas experiências sociais e culturais.
Assim, estudar esse tema não é apenas um exercício acadêmico, mas um compromisso com a formação integral das novas gerações. Ao articular depoimentos de pais e familiares, dados de pesquisas recentes e fundamentos teóricos da Neurociência Social, este artigo busca contribuir para o debate sobre prevenção e intervenção. O intuito é sensibilizar educadores, famílias e gestores sobre a necessidade de olhar para além dos comportamentos visíveis, compreendendo as raízes neurobiológicas e sociais que os sustentam.
A justificativa, portanto, repousa na convicção de que compreender o cérebro em sua dimensão social é passo essencial para promover práticas educativas mais conscientes e relações interpessoais mais saudáveis.
Metodologia
A presente pesquisa caracteriza-se como de natureza qualitativa, com enfoque bibliográfico e exploratório. O objetivo foi compreender, a partir da perspectiva da Neurociência Social, como o comportamento de pré-adolescentes é impactado pelo convívio social, pelas influências externas e pelos vínculos estabelecidos no ambiente escolar.
Para alcançar esse propósito, foram utilizados três eixos metodológicos:
1. Revisão bibliográfica, fundamentada em autores clássicos e contemporâneos da área, incluindo estudos nacionais e internacionais que abordam as relações entre cérebro, comportamento e sociedade.
2. Análise de depoimentos informais de pais e familiares, coletados de maneira espontânea, que revelam percepções cotidianas sobre as dificuldades de controle, a presença de más influências e a vulnerabilidade emocional dos pré-adolescentes.
3. Consulta a dados secundários, disponibilizados em reportagens jornalísticas e publicações científicas recentes, que tratam do crescimento da violência escolar e das mudanças comportamentais dessa faixa etária.
A opção por uma abordagem qualitativa deve-se ao fato de que o tema exige não apenas números, mas interpretações profundas acerca de experiências, percepções e contextos. O cruzamento entre a literatura acadêmica, os relatos empíricos e os registros documentais possibilitou uma visão mais ampla do fenômeno, respeitando sua complexidade.
Além disso, o caráter exploratório desta investigação permitiu levantar hipóteses e reflexões que podem embasar futuras pesquisas de campo, ampliando a compreensão sobre o papel da Neurociência Social na análise e prevenção de comportamentos de risco entre pré-adolescentes.
Introdução
A escola é um dos primeiros espaços sociais em que o indivíduo experimenta a convivência para além do núcleo familiar. É nesse ambiente que se constroem valores, vínculos afetivos e padrões de comportamento que se estendem para outras dimensões da vida. Nos últimos anos, entretanto, os desafios relacionados ao comportamento de pré-adolescentes têm se intensificado, trazendo à tona questões que envolvem violência escolar, más influências e a vulnerabilidade emocional característica dessa etapa do desenvolvimento.
A Neurociência Social surge, nesse contexto, como um campo de investigação capaz de iluminar os mecanismos cerebrais que sustentam o convívio humano. Ao explorar como o cérebro responde às interações, às pressões dos grupos e às experiências cotidianas, abre-se a possibilidade de compreender por que os pré-adolescentes são tão suscetíveis a mudanças de hábitos e a influências externas. Mais do que isso, evidencia-se a urgência de pensar intervenções preventivas que auxiliem não apenas no aprendizado acadêmico, mas também na formação socioemocional.
Estudos recentes apontam para o aumento expressivo de episódios de violência nas escolas, revelando que os fatores sociais não podem ser ignorados. Ao mesmo tempo, depoimentos de pais e familiares expõem uma sensação de perda de controle, como se as influências externas ultrapassassem as fronteiras da autoridade parental. A questão que se coloca é: como preparar os jovens para lidar com tais pressões, preservando sua autonomia e favorecendo escolhas mais conscientes?
Este artigo tem como objetivo discutir a contribuição da Neurociência Social para a compreensão do comportamento de pré-adolescentes no ambiente escolar, considerando o impacto das más influências, o papel da plasticidade cerebral e a necessidade de intervenções precoces. Busca-se, assim, oferecer não apenas uma reflexão acadêmica, mas também uma conscientização prática sobre os caminhos possíveis para uma convivência mais saudável e resiliente.
1. O que é Neurociência Social e sua relevância no contexto contemporâneo
A neurociência social é um campo de estudo que busca compreender como o cérebro humano processa as interações sociais, revelando os mecanismos que orientam comportamentos, emoções e decisões dentro da vida em comunidade. Mais do que investigar o funcionamento isolado de regiões cerebrais, esse campo se dedica a entender como os estímulos externos, oriundos do convívio com o outro, influenciam nossas percepções, vínculos e respostas emocionais. No cenário contemporâneo, marcado pela complexidade das relações humanas e pelo aumento das tensões sociais, a neurociência social torna-se um instrumento indispensável para interpretar fenômenos antes vistos apenas pela lente da psicologia ou da sociologia. Hoje sabemos que os processos de empatia, cooperação, rejeição ou aceitação não são apenas construções culturais, mas também experiências profundamente enraizadas no funcionamento neural.
A relevância desse campo cresce à medida que se evidenciam os riscos da vida moderna. Pré-adolescentes, por exemplo, encontram-se em um período de intensa plasticidade cerebral, o que os torna mais suscetíveis a influências externas. A convivência com colegas, vizinhos ou até mesmo figuras digitais exerce um peso significativo na formação de hábitos e valores. Nessa fase, experiências repetidas moldam redes neurais e consolidam padrões de comportamento que podem se prolongar pela vida adulta. Assim, compreender a neurociência social não é apenas uma questão acadêmica. Trata-se de uma necessidade prática para pais, educadores e profissionais que lidam com crianças e adolescentes em contextos cada vez mais desafiadores. Conhecer os mecanismos que regem o impacto do ambiente sobre o cérebro significa abrir caminhos para intervenções mais eficazes, prevenindo comportamentos de risco e fortalecendo vínculos saudáveis que sustentam o desenvolvimento humano.
A plasticidade cerebral, característica marcante na fase pré-adolescente, evidencia que o cérebro não é estático, mas sim moldável pelas experiências vividas. Cada interação, cada exemplo observado, cada hábito social repetido gera conexões que podem fortalecer comportamentos positivos ou consolidar padrões prejudiciais. Nesse contexto, a influência de pares, de amigos e até de figuras periféricas do convívio diário torna-se mais significativa do que se imagina. Não se trata apenas de imitação, mas de uma reconfiguração neural que traduz experiências sociais em predisposições cognitivas e emocionais. O impacto da socialização precoce e mal orientada vai além da esfera comportamental. Ele alcança o emocional e o cognitivo, interferindo na autoestima, na capacidade de empatia e na habilidade de resolução de conflitos. Quando o ambiente carece de limites claros ou apresenta modelos de comportamento inadequados, o cérebro do pré-adolescente recebe estímulos que podem acentuar impulsividade, resistência a regras e vulnerabilidade a manipulações externas. Por outro lado, interações guiadas por atenção consciente, diálogo e presença efetiva fortalecem estruturas cerebrais ligadas à regulação emocional e à cooperação.
Nesse sentido, a neurociência social oferece ferramentas de análise e intervenção que podem transformar práticas educacionais e familiares. A compreensão dos mecanismos neurais envolvidos no aprendizado social permite identificar sinais precoces de dificuldades de convivência, promovendo ajustes antes que padrões prejudiciais se consolidem. Trata-se de uma leitura sensível da realidade: perceber que mudanças no comportamento não ocorrem de forma instantânea, mas se desenvolvem progressivamente, à medida que o cérebro internaliza experiências e repete hábitos.
Portanto, o estudo da neurociência social transcende a curiosidade científica. Ele nos chama a refletir sobre o papel de cada agente social na formação de um indivíduo.
Ensinar, orientar, intervir com atenção e empatia não é apenas agir sobre comportamentos visíveis; é atuar diretamente sobre o processo neural que sustenta esses comportamentos. Reconhecer essa dimensão abre espaço para estratégias preventivas, para uma educação mais consciente e para relações humanas mais saudáveis, permitindo que a vulnerabilidade natural da fase pré-adolescente seja conduzida com responsabilidade, atenção e cuidado.
2 – Comportamento e Más Influências no Conviver Escolar
O convívio social na escola é terreno fértil para a formação de hábitos, valores e percepções de mundo. Para os pré-adolescentes, cada interação carrega peso significativo, pois suas estruturas cognitivas e emocionais ainda estão em desenvolvimento. É nessa fase que a influência dos pares pode se tornar decisiva, moldando atitudes, reforçando comportamentos e, muitas vezes, direcionando escolhas que repercutem no presente e no futuro próximo. A presença de amigos com comportamentos inadequados, a natural necessidade de aceitação e a curiosidade exploratória podem gerar situações de vulnerabilidade.
A neurociência nos alerta que, durante a pré-adolescência, regiões cerebrais ligadas à tomada de decisão e ao autocontrole ainda estão em amadurecimento. Isso significa que a exposição repetida a modelos de comportamento negativos, seja agressividade, desrespeito às regras ou práticas de exclusão, pode consolidar padrões de ação que serão mais difíceis de modificar posteriormente. Depoimentos de pais e familiares reforçam essa realidade: muitos relatam que a rebeldia dos filhos parece amplificada pelos amigos da escola, pelos vizinhos ou mesmo por influências percebidas nas redes sociais.
Essa observação não é mera impressão; ela está respaldada por evidências científicas que apontam que o comportamento social é profundamente moldado pelo ambiente de interação. A escola, portanto, assume um papel estratégico. Não apenas como espaço de aprendizagem formal, mas como laboratório de socialização consciente. O acompanhamento atento de educadores e familiares, a promoção de valores de respeito, empatia e colaboração, bem como a identificação precoce de comportamentos de risco, são intervenções que dialogam diretamente com o cérebro em desenvolvimento. Assim, é possível reduzir os efeitos negativos das más influências e potencializar oportunidades de crescimento saudável, construindo uma base emocional e cognitiva sólida que guiará os pré-adolescentes para escolhas mais conscientes e equilibradas.
Para compreender a dinâmica do convívio escolar, é preciso olhar para os pequenos detalhes que constroem o dia a dia dos pré-adolescentes. Um simples ato de exclusão durante o recreio, um comentário depreciativo sobre um colega ou a adesão a brincadeiras de risco podem parecer episódios corriqueiros, mas, sob a lente da neurociência, são estímulos que reforçam circuitos neurais relacionados a empatia, autocontrole e tomada de decisão. Imagine um grupo de alunos que adota constantemente práticas de intimidação: a criança que se vê envolvida ou próxima desse comportamento pode ter seu cérebro condicionado a normalizar tais ações. Nesse contexto, a influência do grupo é intensa, porque o córtex pré-frontal, responsável pelo julgamento e pela modulação de impulsos, ainda não atingiu maturidade completa.
Estratégias de intervenção podem ser sutis e gradativas. O diálogo constante, a escuta ativa e o compartilhamento de experiências entre pares são ferramentas que fortalecem conexões neurais positivas. Atividades que estimulam empatia, resolução de conflitos e cooperação não apenas educam o comportamento, mas moldam circuitos cerebrais que tornam os pré-adolescentes mais resilientes a influências externas negativas. Pais e professores podem implementar ações concretas: observação do comportamento social, identificação de amizades que promovam o crescimento e orientação sobre escolhas e consequências.
Além disso, oficinas de habilidades socioemocionais e projetos colaborativos permitem que as crianças experimentem práticas de convivência saudável, internalizando valores de forma natural, quase imperceptível, mas duradoura. A consciência de que cada interação deixa marcas no cérebro em desenvolvimento reforça a urgência de intervenções proativas. Ignorar essas influências pode gerar padrões difíceis de reverter, afetando a vida acadêmica, emocional e social do pré-adolescente.
Por outro lado, intervenções fundamentadas na compreensão neurocientífica oferecem caminhos claros para prevenir danos e cultivar o crescimento saudável, preparando o jovem para conviver de forma equilibrada e consciente em diversos ambientes sociais.
Tópico 3 – Neurociência como Guia para a Mudança de Comportamento
A neurociência social nos oferece lentes poderosas para compreender que o comportamento humano não é fixo, mas moldável. Nos pré-adolescentes, essa plasticidade cerebral é ainda mais evidente. Cada experiência social, cada conversa, cada gesto de empatia ou de conflito deixa impressões no cérebro em desenvolvimento, criando ou reforçando circuitos que podem durar uma vida.
É importante compreender que o cérebro jovem é, simultaneamente, resiliente e vulnerável. A vulnerabilidade surge porque os sistemas de regulação emocional e de tomada de decisão ainda não estão completamente maduros. Assim, más influências externas, pressões de colegas, violência escolar, comparações sociais, têm potencial de modificar padrões de comportamento de forma negativa. Por outro lado, a plasticidade cerebral permite intervenções intencionais: estímulos positivos, diálogos estruturados, atividades que incentivem cooperação e reflexão sobre escolhas podem remodelar esses circuitos, promovendo comportamento saudável e adaptativo.
Exemplos práticos não faltam. Uma criança que aprende a resolver conflitos verbalmente, com orientação de professores e pais, reforça conexões neurais associadas à autorregulação e à empatia. Por outro lado, a repetição de ações impulsivas ou agressivas fortalece caminhos que dificultam a mudança futura. A neurociência, portanto, não apenas explica, mas orienta estratégias: pequenas ações repetidas e consistentes, direcionadas à construção de hábitos positivos, são capazes de gerar transformações profundas ao longo do tempo. Além disso, a ciência nos alerta para a importância da antecipação.
A mudança de comportamento não ocorre de forma instantânea; exige constância, atenção e intervenção estratégica. Programas escolares que integram habilidades socioemocionais, oficinas de convivência e discussões sobre escolhas ajudam a “pré-programar” o cérebro para respostas mais conscientes e equilibradas. A consciência de que cada interação, cada influência, deixa marcas duradouras no cérebro fortalece a responsabilidade de pais, educadores e a própria criança sobre suas ações e decisões.
A neurociência social, assim, não é apenas teoria: é ferramenta de ação. Ela ilumina caminhos para prevenir danos, promover resiliência e preparar pré-adolescentes para uma convivência mais saudável, consciente e emocionalmente equilibrada. A realidade da violência e das más influências no ambiente escolar reforça a urgência de estratégias baseadas na neurociência.
Segundo reportagem da Globo (2025), a violência escolar mais do que triplicou em dez anos, evidenciando que conflitos entre alunos, intimidações e agressões físicas se tornam mais frequentes, criando um contexto de estresse constante para os pré-adolescentes. Esse ambiente impacta diretamente o desenvolvimento neural, reforçando padrões de alerta, medo e impulsividade, e afetando a capacidade de tomar decisões equilibradas e interagir de forma empática.
Além disso, estudos publicados no SciELO indicam que o comportamento dos pré-adolescentes é significativamente influenciado pelo convívio social, incluindo amigos da escola e vizinhança. Essa fase é marcada por alta suscetibilidade à imitação de comportamentos, aceitação social e conformidade a normas do grupo, o que pode amplificar tanto atitudes positivas quanto negativas. Quando não há supervisão ou orientação, essas influências externas podem consolidar padrões comportamentais prejudiciais, refletindo em conflitos recorrentes e dificuldade de adaptação social.
Esses dados mostram que a neurociência social não atua apenas como explicação teórica, mas como guia para ação. Compreender que o cérebro em desenvolvimento está constantemente sendo moldado pelas experiências permite que intervenções educativas, familiares e comunitárias sejam planejadas de forma estratégica. Atividades de fortalecimento da empatia, resolução de conflitos, autorregulação emocional e conscientização sobre as consequências de comportamentos impulsivos são essenciais para construir circuitos neurais saudáveis, prevenindo que padrões negativos se tornem permanentes.
O ponto crucial é que cada ação ou omissão deixa marcas duradouras. Ignorar a influência social na adolescência inicial é abrir espaço para que o estresse, a agressividade e a falta de habilidades socioemocionais se cristalizem. A neurociência social, portanto, não apenas explica os riscos, mas oferece caminhos claros para intervenção, mostrando que mudanças consistentes e precoces podem transformar trajetórias e promover desenvolvimento equilibrado.
Em síntese, a neurociência social evidencia que o convívio escolar e as influências externas não são apenas circunstâncias passageiras, mas elementos que moldam profundamente o desenvolvimento emocional e neural dos pré-adolescentes. Cada interação, cada conflito ou aprendizado experienciado no dia a dia contribui para a formação de circuitos neurais que sustentarão decisões, comportamentos e relacionamentos futuros.
A compreensão de que o cérebro é maleável e responsivo a estímulos sociais oferece uma oportunidade de ação concreta: prevenir padrões prejudiciais antes que se consolidem, promovendo não apenas segurança e bem-estar, mas também habilidades socioemocionais duradouras. Esse entendimento nos conduz naturalmente à reflexão sobre as estratégias de intervenção precoce e prevenção, tema que será aprofundado no próximo tópico, mostrando como agir de forma prática para minimizar os impactos negativos e potencializar o desenvolvimento saudável dos pré-adolescentes.
Tópico 4 – Estratégias de Intervenção e Prevenção: promovendo hábitos e relações saudáveis.
Diante da compreensão de que o cérebro do pré-adolescente é altamente suscetível às influências sociais, a intervenção precoce surge como ferramenta essencial para guiar comportamentos e fortalecer vínculos positivos. Não se trata de controle absoluto, mas de presença atenta, diálogo constante e construção de ambientes seguros, que permitam ao jovem experimentar escolhas, entender consequências e desenvolver resiliência emocional. Pais e educadores podem atuar de maneira coordenada, estabelecendo rotinas que promovam atenção, empatia e cooperação. Espaços de convivência estruturados, atividades que incentivem o pensamento crítico e programas educativos que abordem resolução de conflitos e habilidades socioemocionais são exemplos de estratégias que reforçam o aprendizado de forma natural e duradoura.
Ao mesmo tempo, é vital reconhecer os riscos invisíveis da modernidade digital, que podem amplificar comportamentos de rebeldia ou alienação. A integração consciente da tecnologia, supervisionada e orientada, ajuda a reduzir impactos negativos, ao passo que reforça oportunidades de aprendizado, criatividade e socialização saudável. A prevenção não é apenas reação, mas construção. É olhar para o futuro com consciência de que cada gesto, conversa ou intervenção molda não apenas o presente do pré-adolescente, mas seu repertório emocional, neural e social para a vida. A neurociência social nos oferece, portanto, um farol: com atenção e estratégia, é possível transformar potenciais vulnerabilidades em desenvolvimento sólido, preparando os jovens para enfrentar desafios e formar relações significativas.
Além das práticas já citadas, é fundamental criar momentos de escuta ativa, onde o pré-adolescente perceba que suas opiniões, dúvidas e sentimentos têm valor. Esse espaço não é apenas um mecanismo de controle, mas uma oportunidade de fortalecer a autorregulação emocional e a capacidade de reflexão. Estudos em neurociência social indicam que experiências de validação emocional aumentam a conectividade entre regiões cerebrais ligadas à empatia e ao autocontrole, moldando respostas comportamentais mais equilibradas diante de pressões externas. A atenção aos vínculos de amizade é outro ponto crucial.
Como evidenciado em pesquisas sobre vulnerabilidade à influência de pares, a qualidade das interações sociais pode potencializar comportamentos positivos ou reforçar padrões de risco. O papel de adultos atentos é, portanto, mediar e orientar, sem substituir a vivência própria do jovem, oferecendo referências saudáveis de convívio, resolução de conflitos e escolhas conscientes.
A tecnologia, quando incorporada com limites e supervisão, pode servir como aliada nesse processo. Aplicativos educativos, jogos que estimulam cooperação e plataformas de aprendizado colaborativo oferecem estímulos cognitivos e sociais que complementam a formação neural e emocional. Entretanto, sem monitoramento, o mesmo ambiente digital pode reforçar padrões de comparação, ansiedade ou comportamento impulsivo, mostrando que a intervenção não se restringe à presença física, mas também à vigilância ativa dos espaços virtuais que ocupam o cotidiano do pré-adolescente.
Por fim, percebe-se que a construção de hábitos saudáveis, a mediação consciente das influências externas e a atenção aos vínculos sociais não são tarefas imediatas, mas processos contínuos, que demandam presença, paciência e sensibilidade. A mudança de comportamento não ocorre de forma instantânea; ela se desenha no tempo, moldada por experiências, escolhas e relações.
Compreender essa dinâmica é reconhecer que cada ação de cuidado, cada diálogo atento e cada intervenção estratégica contribuem para a formação de indivíduos mais conscientes de si mesmos e do impacto que o convívio social exerce sobre suas trajetórias emocionais e neurais. É nesse espaço de atenção e orientação que se delineiam caminhos para prevenir efeitos negativos e promover transformações duradouras, preparando o pré-adolescente para enfrentar os desafios de um mundo em constante mudança.
Conclusão
A análise do comportamento de pré-adolescentes diante do convívio social evidencia que as influências externas, muitas vezes sutis, exercem impacto profundo no desenvolvimento emocional, neural e social desses indivíduos.
A Neurociência Social oferece ferramentas valiosas para compreender como o cérebro responde a estímulos de amizade, pertencimento e pressão social, revelando a plasticidade e a suscetibilidade do comportamento humano. Ao longo do tempo, essas interações moldam hábitos, escolhas e padrões de convivência, podendo tanto fortalecer quanto fragilizar vínculos e trajetórias individuais.
Reconhecer a importância da atenção, da presença e da intervenção consciente torna-se, portanto, um exercício de responsabilidade coletiva. Pais, educadores e cuidadores têm diante de si a oportunidade de mediar experiências, promover ambientes seguros e estimular práticas que favoreçam o desenvolvimento saudável. A mudança não é imediata; ela se constrói dia a dia, na sensibilidade com que se observa e orienta cada passo do pré-adolescente.
Dessa forma, compreender os mecanismos da Neurociência Social e aplicá-los à prática cotidiana não apenas ilumina o entendimento sobre comportamentos e influências, mas também aponta caminhos para prevenir danos, incentivar aprendizagens significativas e cultivar relações humanas mais sólidas, conscientes e equilibradas.
É nesse equilíbrio entre ciência, atenção e convívio que se encontra a possibilidade de transformar vulnerabilidades em oportunidades de crescimento, oferecendo ao pré-adolescente suporte real e duradouro para navegar pelos desafios de seu tempo.
Referências
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